sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A Campanha Contra os Professores Continua



Folheando a revista Época num consultório médico me deparei com uma reportagem intitulada “Em busca do Professor Fantasma”, com as impressões registradas pela professora aposentada Eugenia Maria Bueno, de 61 anos de idade que frequentou por seis meses as escolas estaduais de SP anotando tudo que via num caderninho.
A professora, que mais adiante se revela diretora de escola aposentada declarava que o seu maior espanto ficou por conta do número absurdo de faltas dos professores.
 “A média de faltas hoje é dez vezes maior que há 20 anos...”.
“Os professores aproveitam todas as brechas da lei para “matar aula” o ano todo e isso acontece porque a lei permite...” (vamos combinar: essa de “matar aula” foi demais!)!
“é preciso mudar o estatuto dos funcionários públicos”.
“é preciso premiar os que não faltam” e por aí afora.
O mais estranho é que, passeando pelos corredores da escola por seis longos meses, essa ingênua criatura não tenha ficado chocada:
- com o nº de alunos por classe que saltou de 20 para 40...
- com o fato de que os alunos recebem material escolar do governo, mas esquecem sistematicamente os livros e cadernos em casa para não realizar as atividades de classe.
- com a quantidade de dias letivos e o número de horas-aula que mais que dobrou da época dela para cá;
- com a extinção da função de inspetores de alunos, nas escolas estaduais de SP, o que impede o professor de sair de classe até para ir ao banheiro, uma vez que não tem como deixar os estudantes;
- com o desespero do professor que acaba prejudicando suas cordas vocais na tentativa de explicar Matemática para uma classe onde a maioria dos alunos conversa em voz alta, de costas para a lousa, enquanto alguns interessados tentam ouvir alguma coisa;
- com a violência dos alunos que, amparados pelo ECA, xingam e chegam a agredir fisicamente colegas e professores;
- com os dependentes químicos que entram na escola sob o efeito de drogas ou em plena crise de abstinência e, além de não aprender nada, causam transtornos disciplinares impedindo que os colegas de classe ouçam o professor explicando a matéria;
- com a total falta de comprometimento de grande parte das  famílias brasileiras com a educação dos filhos;
- com o perigo de condenação a penas alternativas caso faça uma advertência verbal, diante da classe, ao aluno indisciplinado. Nesse caso, baseados no ECA, os pais buscam indenizações junto ao juizado da infância e da juventude alegando danos morais, constrangimento etc.;
- com a falta de bibliotecas e bibliotecários nas escolas.
- com o sistema de promoção automática (mascarado de “progressão continuada”) que leva o aluno a descuidar-se dos estudos por já iniciar o ano letivo aprovado;
- com o fato de que, em plena era da informática, o professor só conte com giz branco e apagador (isso na grande maioria das escolas);
- com a inutilidade das reuniões de HTPC, criadas para troca de experiências e reflexão pedagógica, mas que foram transformadas, na maioria das escolas, no momento dos aviso administrativos, de advertências (veladas ou não) ao corpo docente, no momento para arrecadação de fundos para festas juninas e afins.
- com os baixos salários dos educadores, que inviabiliza a aquisição de livros, assinatura de revistas ou jornais (itens indispensáveis à atualização profissional).
- com a desvalorização sistemática do trabalho dos professores, promovida por veículos de comunicação financiados por governantes inescrupulosos que, na tentativa de livrar-se da responsabilidade, tratam de disseminar a ideia de que o professor sozinho (trancado na sala de aula, sem vez e sem voz na mídia) pode mudar a realidade educacional deste país.
Quem sabe se dona Eugênia tivesse dirigido à escola um olhar mais atento e humano, teria percebido as péssimas condições de trabalho dos colegas...
Para que se tenha uma ideia, todos os trabalhadores têm direito a um reajuste anual na data base de sua categoria. Porém, essa doce senhora apoia a ideia da meritocracia segundo a qual os professores só recebem reajuste:
a) se forem cem por cento assíduos e obtiverem boa classificação nas provas anuais a que o governo os submete - algo em torno de 5% sobre o salário-base da categoria.
b) se seus os alunos forem frequentes e conseguirem boas notas nas provas elaboradas pelo governo - um bônus uma vez por ano, ao final do ano.
Dessa forma, para receber as “vantagens” acima descritas é preciso contar com o empenho dos alunos realizando a proeza de, nas condições de trabalho acima descritas, comprovar sua contribuição para promover uma melhora significativa na qualidade do ensino público do país... Nesse sistema perverso, mas econômico e visivelmente vantajoso para “o patrão”, os aposentados simplesmente morrem de fome, porque os preços sobem, mas seu salário permanece o mesmo indefinidamente.
Agora eu pergunto: quem, em sã consciência e com alguma capacidade de colocação no mercado de trabalho vai abraçar a carreira do magistério?
Por fim, lanço um desafio aos teóricos que, como ela, passam desatentos pelos corredores das escolas, tirando conclusões como estas:
Que eles passem um ano em sala de aula atual, na pele dos professores, submetidos diariamente às atuais condições de trabalho das escolas públicas – violentas e sem estrutura, tendo que sobreviver com os salários pagos pelo estado com a maior arrecadação do país para, só então, expressarem seu parecer sobre a atuação dos educadores.

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