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Aconteceu no Carnaval


Ninguém acredita, mas fui jipeira convicta e juramentada.
Nas férias viajava para a casa de praia de uma amiga em Ilhabela; íamos pela Rio-Santos (uma ousadia para a época). A estrada era esburacada, sem asfalto, cheia de curvas, subidas e descidas derrapantes. Quando chovia, os carros atolavam - uma loucura! Porém, meu Gurgel bege de capota de couro preta, nunca nos deixou na mão.
Viajávamos descalças, de shorts, ou biquíni com canga. Como naquela época ninguém sequer pensava em lei seca, fazíamos um pit stop nos barzinhos do caminho para tomar um chope ou uma caipirinha. Almoçávamos peixe frito e, quando o calor incomodava, parávamos para um mergulho numa das praias do caminho.
Numa dessas viagens resolvemos que passaríamos o Carnaval por lá e nos inscrevemos para sair no bloco de uma pousada. No ato da inscrição, nos indicaram a costureira que estava preparando as fantasias femininas - um “collant”  e um adereço na cabeça. Ela tirou nossas medidas e não nos preocupamos mais – a diversão estava garantida.
No dia do desfile, devidamente maquiadas, nos apresentamos no saguão da pousada para receber nossas fantasias e a confusão era geral. O problema é que a costureira enganou-se ao cortar as peças e fez os tais “collants” com a cava maior nas costas. Você vai dizer: "fácil, só vestir de trás pra frente”. Porém, não dava para fazer isso por causa do decote. A coisa era assim: ou ficávamos com os seios a mostra pelo decote traseiro ou ficávamos com boa parte do bum bum de fora saindo pela cava dianteira. Nos dias de hoje, com a moda do fio dental, a polêmica nem teria surgido. Porém, para os padrões da época, a fantasia era escandalosa. Os maridos furiosos gritavam que as esposas não iam desfilar naqueles trajes. O dono da pousada agitado afirmava que o bloco sairia assim mesmo. A costureira sumiu e algumas mulheres estavam com a maquiagem borrada de chorar. Ninguém se entendia. Venceu o dono da pousada e o bloco foi pra rua daquele jeito.
Não preciso nem dizer que fomos aplaudidíssimas... Um sucesso...

No dia seguinte ao desfile, o comentário na ilha era geral e descobrimos então que recebemos o apelido de “Bloco da Abundância”!


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