domingo, 19 de janeiro de 2014

Receita Antiga de Família

Minha família materna saiu da Espanha na época da imigração. Uma parte veio para o Brasil e outra foi para a Argentina.
Os que vieram para cá, com meu avô e minha avó, fixaram-se em Santos (litoral de SP.), mas sempre mantiveram contato (por carta) com as primas que seguiram para a Argentina.
Além dos correios, elas tinham outro aliado para encurtar a distância que as separava : um senhor da marinha mercante que, quando chegava ao porto de Santos, trazia e levava notícias e presentes dos familiares.
O nome dele era Sr. Sátiro. Não recordo o seu rosto, mas lembro de que era forte e bonachão. Falava castelhano, português, inglês e arrastava no alemão.
Quando o navio em que trabalhava chegava aqui era uma festa. Minha tia Ondina corria ao telefone  para avisar a família e organizar os preparativos para a reunião.
No dia do evento, depois de almoçar, eu e minha mãe nos preparávamos para o encontro. Caminhávamos apressadamente  pela avenida que ladeia o canal três,  ansiosas pelas novidades que o viajante trazia.
Sr. Sátiro fazia suas exigências - no cardápio do almoço duas coisas não podiam faltar:  farofa na manteiga e, como sobremesa, bananas caramelizadas que, segundo ele, ninguém sabia preparar como a anfitriã.
A farofa na manteiga nunca experimentamos, mas as bananas eram realmente deliciosas. Elas ficavam levemente avermelhadas, recobertas por uma generosa  quantidade de calda dourada e espessa. Eu e minhas primas pequenas gulosamente comíamos e pedíamos mais. Seu Sátiro sorria e dizia:
- Dê-me mais uma também, vou acompanhar as meninas.
Depois da sobremesa, era a hora de nos reunirmos no terraço da casa para ler as cartas.
Sr. Sátiro sentava-se ao centro, mamãe e suas irmãs em volta,  as crianças  espalhavam-se sobre um tapete que recobria o chão frio de cerâmica vermelha. 
Solenemente ele abria sua sacola de couro marrom e, com muita calma, ia distribuindo seu precioso conteúdo.
Á medida que as cartas iam sendo abertas e os presentes desembrulhados todos começavam a falar ao mesmo tempo. Uma loucura! Dos embrulhos saiam sabonetes , perfumes, cortes de tecido, leques etc.
Nessa hora, como que para acalmar os ânimos, a empregada servia um cafezinho e a conversa caminhava para as narrativas do comandante sobre os lugares em que estivera com seu navio.
A tarde ia transcorrendo assim, alegre e descontraída até que chegava o momento do simpático visitante embarcar levando as lembranças daqui para as primas da Argentina: pó de café (comprado sempre no Café Adelino – uma casa especializada localizada no centro de Santos), cortes de tecido da Tecelagem Francesa (loja de tecidos famosa na época), gorros, sapatinhos e luvas de tricô que minhas tias teciam para aquecer as primas no inverno rigoroso da Argentina.
Engraçado, até aqui não lembrava o nome da cidade onde elas viviam, mas revivendo esses fatos, em minha mente surgiu a imagem de uma carta escrita com uma letra caprichada endereçada para “Rosário de Santa Fé”...
Nunca aprendi a fazer bananas caramelizadas como aquelas, mas hoje encontrei este  livro antigo de receitas da minha mãe e resolvi compartilhar essa história aqui.






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