domingo, 8 de dezembro de 2013

O Perfume da Casa de Tia Louise


Tia Louise era uma prima de minha mãe que carinhosamente tratávamos com ti. Ela tinha a casa dos sonhos – grande, linda, bem mobiliada sempre limpa e perfumada.
Todos os anos íamos lá no período que antecede o Natal, pois a imagem de Nossa Senhora visitava as casas da rua onde ela morava.
A Santa passava por nove lares e, quando Ela chegava numa das casas escaladas para recebê-La os anfitriões organizavam a reza e uma bela mesa de comes e bebes que era oferecida aos convidados, ao final da oração.
A mesa de tia Louise era sempre impecável. Sobre uma bela toalha de linho bordada com ponto richelieu, ela dispunha peças de cristal como pratos de bolo, poncheira, jarras, taças etc. O vaso repleto de rosas naturais ocupava, invariavelmente, o centro da mesa completando a decoração.
Mas, havia um detalhe: nem tudo é perfeito e tia Louise detestava a cozinhar e, por isso, servia sobre essas lindas peças: sanduíches de pão de forma com patê comprado no supermercado, fatias de presunto e queijo enroladinhas, um bolo daqueles de pacote todo fatiado e vários tipos de suco.
A mesa era organizada com tanto capricho que sou capaz de apostar que a falta de habilidade culinária da dona da casa passava despercebida aos convidados.
Ela era uma mulher tão caprichosa nesse quesito que dava-se ao luxo de “vestir” sua casa de acordo com a estação do ano. No inverno as cortinas, almofadas e tapetes eram de tecido mais pesados em tons “fechados” enquanto que no verão tudo era substituído por tecidos leves em tons claros.
Porém, o que sempre me chamou a atenção era o cheiro delicioso de doce acabado de fazer que passeava pelos cômodos da casa dela.
A qualquer hora que se chegasse a impressão que tínhamos é de que ela nos serviria uma deliciosa compota caseira numa daquelas suas maravilhosas taças de cristal – o que nunca acontecia, é claro.
Quando os filhos casaram e ela ficou viúva, mudou-se para um apartamento.  Fomos visitá-la em seu novo endereço e, logo que entramos, sentimos aquele cheiro bom e inconfundível.
Minha mãe e minhas tias, curiosas sobre o “cheiro da casa de tia Louise” perguntavam que perfume era aquele, mas, como membro da família dos segredos, a resposta era sempre a mesma – ela alegava não saber do que se tratava e dizia até que não sentia o tal cheiro a que elas se referiam.
Passados muitos anos, li numa revista esta dica: “para deixar sua casa perfumada e livre de insetos, prepare num borrifador uma mistura de cravos da índia com álcool. Deixe descansar por alguns dias e a mistura está pronta para ser usada”.
Fui logo ligando uma coisa a outra – cravo da índia → cheiro de doce em compota → casa de tia Louise.
Preparei a mistura e borrifei com ela a sala toda. Bingo! Em poucos segundos voltei no tempo e senti o cheiro inesquecível da casa de tia Louise.
Enfim estava revelado mais um segredo de família.





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