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Lembranças

Ouve uma época da minha vida, quando ainda morava na casa de meus pais, em que os lanches de domingo eram momentos muito especiais.
Sempre recebíamos amigos e familiares. Lá pelas 15 horas as pessoas iam chegando - naquele tempo almoçava-se às 12 horas e depois de uma soneca, começava a longa tarde de domingo.
Acho que as pessoas percebiam o prazer que meu pai sentia em promover essas reuniões e vinham para uma conversa amena e uma mesa caprichada onde era servido ao final de tarde o lanche que preparávamos.
Cheguei a bordar, especialmente para esse lanche de domingo, uma de cânhamo branco em ponto cruz azul colonial. Além da toalha, ainda bordei oito guardanapos com uma miniatura do motivo escolhido. Foram três meses de trabalho diário, mas valeu à pena só pelo sorriso de meu pai quando deparou-se com ela engomada, estendida sobre a mesa da sala de jantar.
Nesses encontros falava-se de tudo: política, notícias da semana e quando minha tia e meu pai começavam a recordar a infância aí ouvíamos histórias da época do cinema mudo, daquela tarde em que os cinco irmãos foram ao circo, do chocolate suíço que meu avô comprava porque a indústria brasileira ainda engatinhava. E a conversa transcorria assim pela tarde afora.
Minha tia Marina (irmã de meu pai) era presença constante nessas reuniões e vinha com seu marido caminhando da orla da praia (onde ela morava) pela Avenida Washington Luís, aproveitando a sombra dos pés de jambolão que até hoje ladeiam o canal Três. No caminho parava numa padaria e trazia pão fresquinho ou uma rosca doce.
Como disse acima, a mesa da sala de jantar era de oito lugares em estilo colonial e nela dispúnhamos o lanche composto de bolo, biscoitinhos, geleia, pães, frios, manteiga, café ou chocolate e suco de frutas (refrigerante nem pensar – meu pai detestava).
Nessa época, havia em Santos uma mercearia muito conhecida. Ela ficava no centro da cidade e comercializava produtos de boa qualidade como queijos finos, presunto com capa de gordura, salame, copa etc. Na sexta-feira meu pai sempre dava um jeitinho de passar por lá e trazer para casa essas gostosuras.
Era uma rotina? Era. Mas nós adorávamos receber as pessoas queridas em nossa casa, um hábito que desapareceu entre as famílias e que estreitava os laços, aquecia o coração.
Encerro esse texto com uma frase de Mário Quintana que traduz bem esse sentimento que guardo a respeito da casa de meus pais.


"Não importa que a tenham demolido: A gente continua morando na velha casa em que nasceu." Mário Quintana.


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